Diary - My Travel Journal

Scotland, Highland, The Inner Hebrides: Isle of Skye

 
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Scotland, Highland, The Inner Hebrides
Isle of Skye

     

Portuguese version after the English text | Versão em português depois do texto em inglês

•    A visit to the Highlands is not complete unless it entails some of its many islands, including the Isle of Skye, located to the north of the Inner Hebrides, one of the largest island in the Scottish territory and one of the most sought after by photography enthusiasts.


•    Uma visita minimamente completa às Highlands deve incluir algumas das suas muitas ilhas e a de Skye, situada a norte do arquipélago das Inner Hebrides, uma das muitas do território escocês, é das mais procuradas pelos amantes da fotografia.

 
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Chapters

Isle of Skye 

 

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The Eilean Donan Castle

  • The bridge that allowed for the road access (route A87) between Kyle of Lochalsh with the beautiful Eilean Donan castle, in the continental area, and Kyleakin, in the eastern area of the island, was inaugurated in 1995, and that has most certainty contributed to promote tourist activity, which is fundamental for survival of its inhabitants.

  • Data de 1995 a inauguração da ponte que veio permitir o acesso rodoviário (pela estrada A87) entre as localidades de Kyle of Lochalsh com o belo castelo de Eilean Donan, no continente, e de Kyleakin, na zona leste da ilha, contribui certamente para a promoção da actividade turística, que é fundamental para a sua subsistência.

 

Kyle of Lochalsh, Scotland | August 11, 2012

In the tranquility of Elgol

  • A good option to experience skye is roaming south, to Elgol. From Broadford onwards the path is narrow and the circulation allows for one vehicle at a time only, but the roda is good and there are many spots where the road widens and allows for the simultaneous crossing of vehicles, always with great diplomacy and lightnees. In this part of the island the landscape is quite rural, combining the tranquillity of the surrounding waters, the grandiosity of the mountains and the warmth of its inhabitants. Elgol is a small fishing village with several nooks and recesses with great photographic potential, which may justify a few day stay.

  • Uma boa opção para conhecer Skye é seguir em direcção ao sul, até Elgol. A partir de Broadford a estrada é estreita e apenas permite a circulação de um veículo, mas está em boas condições e são muitos os pontos em que a via se alarga para que os visitantes se cruzem, o que é feito com grande diplomacia e ligeireza. Nesta parte da ilha a paisagem é bastante rural, conjugando-se a tranquilidade das águas, a imponência das montanhas e a simpatia dos habitantes. Elgol é uma pequena aldeia piscatória com inúmeros recantos de interesse fotográfico, que justificam uma estada de alguns dias.

On the way to Loch Coruisk

  • Do not forget to visit the Loch Coruisk on boat, sailing past a local seal colony, in the heart of the Cuillin Mountains. The boat is controlled by a local fisherman named Seumas, the eldest working in the Isle of Skye (Misty Isle Boat Trips: http://www.mistyisleboattrips.co.uk/), who welcomes his passengers in his mysterious Gaelic Scottish idiom. If you’re lucky enough, you might catch a glimpse of sharks, whales and dolphins. The boat stops for half an hour so that tourists can enjoy the mountain scenery and walk for a little while. Back in the boat, the warm crew, composed by three generations of the same family, presents us with coffee, hot chocolate or juice with cookies or chocolates.

  • Não se esqueça de visitar o Loch Coruisk, passando ao largo de uma colónia de focas, no coração das Cuillin Mountains. O barco é pilotado por um pescador local, de nome Seumas, que é o mais antigo a operar na ilha de Skye (Misty Isle Boat Trips: http://www.mistyisleboattrips.co.uk/) e costuma fazer uma recepção de boas vindas na enigmática língua gaélica escocesa. Em dias de sorte, é possível avistar tubarões, baleias e golfinhos. A embarcação efectua uma paragem de meia hora para que os turistas possam apreciar a paisagem montanhosa e caminhar um pouco. De regresso ao barco, a simpática tripulação constituída por três gerações da mesma família oferece-nos café, chocolate quente ou sumos acompanhados de biscoitos ou chocolates.

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post 44

The paths to Santiago: Sainte-Foy de Conques

 

The paths to Santiago
Sainte-Foy de Conques
Midi-Pyrénées, France

     

Briefly in English version | Em breve versão em inglês

      Dos quatro caminhos de Santiago que atravessam os Pirenéus em território francês, três fazem-no, como sabemos, em Saint Jean Pied de Port, e o de Arles em Col du Somport. A abadia de Sainte-Foy de Conques encontra-se no caminho de Le Puy, tal como a de Moissac.
      Embora não seja seguro, julga-se que a abadia de Conques foi fundada no início do século IX, numa colina do Vallée du Lot, e terá sido em 866 que o monge Ariviscus trouxe para este lugar ainda hoje isolado, de um mosteiro de Agen, as relíquias de sainte Foy, o que foi determinante para atrair peregrinos. O facto de se encontrar no caminho de Santiago terá igualmente contribuído para a difusão do culto de Santa Fé na Península Ibérica. A lenda do martírio de sainte Foy remonta ao ano de 303 e relata que uma jovem de treze anos natural de Agen se recusou firmemente a abandonar a fé cristã perante os Romanos que ocuparam a cidade. Por ordem do governador romano, foi deitada numa grelha colocada sobre o fogo e, quando uma violenta trovoada apagou as chamas, foi decapitada. Sainte Foy tornou-se padroeira da fé dos mais jovens e é também evocada pelos casais que desejam ter um filho. 

Lighting of the tympanum of the Abbatial Church of Sainte Foy, Conques, France | September 3, 2018

      Desde meados do século X a abadia de Sainte-Foy de Conques era já um espaço sagrado próspero e os tesouros que reuniu ao longo dos séculos, e se preservaram, designadamente objectos de arte sacra realizados em ouro, como a célebre imagem-relicário de sainte Foy, coberta de ouro e cravejada de pedras preciosas, estão actualmente expostos ao público no chamado Trésor de Sainte-Foy, uma colecção valiosíssima, que reúne peças do século IX ao século XIX. Nas suas proximidades, o Musée Joseph Fau acolhe o espólio proveniente da antiga abadia, como os capitéis do claustro românico do século XII (do qual hoje apenas se preservam duas secções), esculturas e uma colecção importante de tapeçarias realizadas em Felletin, designadamente uma armação sobre a vida de Maria Madalena tecida no século XVII.
      A igreja da abadia de Conques e o Pont des Pèlerins foram inscritos na lista do Património Mundial da UNESCO enquanto lugares de passagem dos peregrinos de Santiago de Compostela. De facto, não obstante a beleza e a riqueza dos tesouros acima referidos, é o edifício actual, cuja construção se situa entre 1041 e 1050, substituindo uma antiga igreja dedicada a Saint Sauveur, que continua a atrair diariamente visitantes, que se demoram em particular na contemplação do tímpano da fachada ocidental. 
      Com a sobriedade geral do edifício contrasta a riqueza decorativa deste tímpano, do início do século XII, considerado um dos exemplos mais magníficos de decoração escultórica medieval, que preserva ainda vestígios da policromia original, reforçando o impacto da mensagem aos fiéis gravada na pedra. Composto por 124 figuras, que se dispõem em três níveis, delimitados por legendas, constitui uma das ilustrações mais admiráveis da Queda, da Ressurreição e do Juízo Final. Cristo em Majestade ocupa o centro, abençoando os eleitos, que se encontram à sua direita – entre as quais figuram a Virgem Maria, seguida de São Pedro, e sainte Foy, prostrada perante a mão de Deus, que sai das nuvens –, e rejeitando os condenados, dispostos à sua esquerda, mas afastados por um painel decorado com quatro anjos: em cima, um apresenta o livro da vida; outro, em baixo, segura um turíbulo. No registo inferior, aos pés de Cristo, vemos o arcanjo São Miguel a pesar as almas, enfrentando um demónio que o tenta enganar, e assinala-se de forma clara a divisão entre o Paraíso e o Inferno, à porta do qual se encontra a enorme boca de Leviatã (ser híbrido, meio crocodilo, meio serpente, já referido no Antigo Testamento, surgindo em evidência, do lado esquerdo (de Cristo), a figura do Demónio de olhos ávidos a assistir aos tormentos dos condenados. No registo superior distingue-se a imagem da cruz sobre a cabeça de Cristo, símbolo da Paixão e da Ressurreição, rodeada de anjos. As imagens de catorze “anjos curiosos” (le curieux) esculpidos na arquivolta, que assistem ao Julgamento e espreitam discretamente por cima de um longo rolo de papiro, completam este excepcional conjunto decorativo. O esquema iconográfico deste tímpano é característico dos tímpanos edificados no século XII que se centram no tema do Juízo Final, que também teremos oportunidade de comentar num outro post sobre Saint Lazare de Autun. 
      A característica arquitectónica mais evidente da igreja de Conques é a sua elevação, graças aos 22 m de altura da nave principal, coberta por abóbadas de berço. À dimensão do transepto, que se deve ao facto de a igreja estar destinada a acolher muitos peregrinos, acrescenta-se a imponente e elevada cúpula que cobre o cruzeiro (espaço de intersecção da nave central com o transepto). Xavier Barral i Altet (Conques, Éditions Jean-Paul Gisserot, pp. 8-9) observa que a igreja de Conques se integra num modelo de edifício românico que se desenvolveu na Idade Média na Europa meridional, sobre as rotas de peregrinação para Santiago de Compostela, e inspirou igualmente as igrejas de Saint-Martin de Tours, Saint-Martial de Limoges, Saint-Sernin de Toulouse e a catedral de Santiago de Compostela. Trata-se de um tipo de construção preparado para a circulação de um grande número de peregrinos, cuja planta apresenta várias naves, com tribunas e várias capelas radiantes. Em Conques, as naves são três: uma central e duas laterais, estas últimas prolongadas por um deambulatório, que permitem a circulação dos fiéis desde a entrada na igreja até à sua saída, sem perturbar os que na nave central assistem ao serviço religioso que decorre no altar. São estes elementos arquitectónicos – as naves laterais com deambulatório – que definem as chamadas igrejas tipo de peregrinação. A elevação do edifício, que se verifica em Conques, integra-se também neste modelo, onde normalmente a nave principal é coberta por abóbadas de berço e as naves laterais por abóbadas de aresta. Em Conques, as naves laterais, que comunicam com a nave principal através de arcadas, sustentam tribunas altas, cuja função exacta se desconhece, nas quais se abrem janelas que permitem a entrada de luminosidade.
      A sobriedade geral do exterior da igreja reflecte-se no seu interior, onde a decoração se apoia em especial na ornamentação esculpida dos capitéis, na presença de algumas esculturas – como a imagem de sainte Foy da capela central do deambulatório e os anjos da cúpula: São Miguel e São Gabriel) –, e nos frescos da sacristia, datados do século XV, que relatam o martírio de sainte Foy.
      Na decoração dos capitéis regista-se o predomínio de ornamentação vegetalista derivada do capitel coríntio (folhas lisas fendidas, caules que culminam em volutas, palmetas, sobretudo na nave principal (onde vemos o capitel com uma luta entre dois cavaleiros, junto de um “atlante”, enquanto os capitéis historiados, em menor número, encontram-se especialmente nas capelas do transepto, no cruzeiro e no deambulatório. A ornamentação vegetalista surge por vezes combinada com a representação de rostos humanos ou semi-humanos, animais, anjos ou seres fantásticos. Entre as cenas esculpidas distinguem-se, por exemplo, a condenação de sainte Foy, o sacrifício de Abraão; a última ceia: Cristo oferece aos seus Apóstolos o cálice do seu sangue (São Pedro encontra-se à sua direita, São Paulo à esquerda); episódios da vida de São Pedro, em três capitéis do braço sul do transepto, considerados dos mais antigos: Cristo, acompanhado por um anjo, aparece a São Pedro; à direita do apóstolo, o imperador Nero; a crucificação do apóstolo, de cabeça para baixo. 
      No exterior da igreja, no lado sul, encontra-se o túmulo do abade Bégon (1807-1107), e o epitáfio recorda que se deveu a ele a edificação do claustro, hoje bastante destruído, mas no qual podemos ainda apreciar os capitéis esculpidos. O grupo escultórico que o ornamenta é composto por três figuras – o Cristo, o abade e sainte Foy – cada uma acompanhada por um anjo.
      Os vitrais da abadia, caracterizados por bandas monocromáticas de tom claro, o que lhe confere grande sobriedade, são uma obra contemporânea, realizada em 1994 pelo pintor Pierre Soulages a pedido do Ministério da Cultura francês.

Saint Foy de Conques, Midi-Pyrénées, France

 
 

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post 49

The paths to Santiago: a map of the paths

 

The paths to Santiago
A map of the paths

 
  • The four principal pilgrimages routes to Santiago: the path to Paris (Via Turonensis), which welcome the pilgrims coming from Northern Europe (Tours, Poitiers, Bordeaux, Sauveterre-de-Béarn and Saint-Michel, among other places); the path of Limousin (Via Lemovicensis), which starts in Vézelay, crossing Éguzon, Limoges, Saint-Pierre-du-Mont and Orthez; the path of Le Puy (Via Podiensis), crossing Conques, Moissac and Navarrenx. In addition to these three main routes, there is the forth one, the path of Provence (Via Tolosana or Via Arletanensis), which starts in Arles and crossing, not the road we are taking, but a little further East, in Col du Somport. These four roads cross Puente la Reiña, the location that starts the path into the Spanish territory known as the Camino Francés. They continue to be used by pilgrims, just like in the past pilgrims from all over Europe walked to Santiago de Compostela in search of salvation, which in the Middles Ages meant to start a new life.

  • Os quatros principais caminhos de peregrinação para Santiago: o caminho de Paris (Via Turonensis), que recebe os peregrinos vindos do Norte da Europa e passa, entre outros locais, em Tours, Poitiers, Bordeaux, Sauveterre-de-Béarn e Saint-Michel; o caminho de Limousin (Via Lemovicensis), que se inicia em Vézelay, passando por Éguzon, Limoges, Saint-Pierre-du-Mont e Orthez; o caminho de Le Puy (Via Podiensis), por Conques, Moissac e Navarrenx. Além destes três itinerários principais, há um quatro, o caminho de Provence (Via Tolosana ou Via Arletanensis), que vem de Arles e não faz a passagem dos Pirenéus, mas um pouco mais a leste, em Col du Somport. Estes quatro caminhos passam em Puente la Reiña, a localidade que dá início ao caminho em território espanhol designado por camino francés. Continuam hoje a ser frequentados por peregrinos, tal como no passado peregrinos de toda a Europa caminhavam para Santiago de Compostela em busca da salvação, o que na Idade Média significava recomeçar uma nova vida.

 

post 48

The paths to Santiago: the Romanesque art

 
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The paths to Santiago
The Romanesque art

 

Briefly in English version | Em breve versão em inglês      

      A função pedagógica da arte na Idade Média traduz-se na ideia de que a escrita é uma técnica ao serviço da aprendizagem dos que sabem ler, tal como a pintura tinha essa função junto dos que não eram instruídos. De facto, foi através de imagens que muitas vezes se ensinou, na Idade Média, a mensagem bíblica. A expressão ut pictura poesis (‘tal como a pintura, assim é a poesia’) surge na Arte Poética do poeta latino Horácio (século I a.C.), mas sintetiza uma reflexão atribuída ao poeta grego Simónides de Ceos (século V a.C.), segundo a qual a pintura é poesia silenciosa e a poesia é uma pintura que fala.
      Também as igrejas do período românico e sobretudo as de peregrinação assumem uma vocação didáctica, evidente, por exemplo, nos tímpanos e capitéis, uma vez que através deles se transmite uma mensagem à população que não sabe ler, mensagem esta que está associada a um tempo de crise moral, quando os ricos se dedicavam aos prazeres da vida para esquecer a morte e os pobres, que nas iluminuras são retratados de uma maneira repugnante, representam os sinais do vício e do pecado da sociedade. É precisamente nestes aspectos que a mensagem mais incide, usando os tímpanos e capitéis com alusão ao Juízo Final para comunicar de uma forma clara e eficaz a pena ou recompensa que a Igreja reserva para o homem, a punição ou absolvição das almas.

É neste ambiente que se desenvolve a igreja militante e o mosteiro do peregrino, por um lado, fruto da segunda fase de cristianização e do aumento demográfico, que gera um acréscimo de fiéis e, por outro lado, pelos medos que eram incutidos às populações. Além disso, a igreja do monge (Ordem Beneditina), que estabelece o diálogo com Deus, também desenvolve um trabalho em prol da caridade e protecção aos pobres e peregrinos, defendendo igualmente as artes plásticas, cuja função na Idade Média é a representação do sacrifício para agradar a Deus, ou seja, uma arte simbólica ao serviço de uma ideia superior.
      As igrejas de peregrinação foram edificadas, na sua maioria, durante o período de florescimento do modo românico. As paredes são construídas em alvenaria (pedra miúda) e apresentam como elementos arquitectónicos característicos arcadas cegas (conjunto de arcos simulados – em saliência – como parte integrante de uma parede ou muro), que ritmam os andares; bandas lombardas com pilastras pouco salientes (que são faixas verticais que se encontram nas paredes dos edifícios e muros, nas absides ou nos campanários) e torres, também designadas como campanário, que estão na origem das torres das igrejas medievais, cuja função é essencialmente simbólica e funcional (torre sineira). De estrutura simples, apresentam na sua maioria uma planta circular ou quadrangular (torre de cruzeiro) de arcadas cegas. As torres localizam-se normalmente na fachada ou no transepto do edifício. De uma forma geral, é seguro dizer que toda a aparência externa do edifício sugere grande simplicidade.
      O interior das igrejas de peregrinação, ao contrário do que se verifica no exterior, apresenta uma maior riqueza decorativa e arquitectónica. No entanto, nas igrejas cistercienses do século XII, influenciadas por São Bernardo de Claraval, fundador da Ordem, dada a ausência decorativa nas paredes interiores, despidas de quaisquer pinturas, acentuava-se a frieza da construção em pedra. Noutras igrejas desta época, a cor e as formas dominavam o espaço interior, onde as pinturas, os capitéis e os tímpanos tinham um papel doutrinal, pois contavam através de imagens pintadas e de figuras esculpidas a História Sagrada, e através dessas obras podia-se ensinar os que não sabiam ler, contribuindo ainda para a reflexão sobre acontecimentos difíceis de explicar, como a morte ou os fenómenos considerados sobrenaturais nessa época.
      No entanto, a pintura foi ao longo do tempo desaparecendo e hoje o seu vestígio é escasso ou deteriorou-se significativamente, impedindo-nos de ter um conhecimento mais rigoroso do que teria sido o papel da pintura e das suas composições planas e lineares para a doutrina dos homens medievais.  
      Também a imaginária constituiu uma forma privilegiada de arte no período românico e assume a já referida função pedagógica. As imagens compreendem motivos decorativos cuja temática inclui seres fantásticos, elementos vegetalistas, representações do quotidiano da vida das pessoas, bem como cenas religiosas.
      No que diz respeito aos temas tratados na decoração escultórica das igrejas, começamos por observar que a arte românica, até ao século XII, recorre principalmente aos episódios do Antigo Testamento, enquanto a arte gótica terá preferência pelo Novo Testamento.

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post 47

The paths to Santiago: the Patron Saint

 
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The paths to Santiago
The Patron Saint

Portuguese version after the English text | Versão em português depois do texto em inglês
 
 •    The majestic Cathedral of Compostela is dedicated to one of the Apostles of Christ, the brother of John the Evangelist, whose name we can see written in different ways: Santiago (James) Maior (The Greater) (to distinguish him from the other disciple also called James the Minor), Santiago (James) The Great, Santiago (James) Son of Thunder or Santiago de Compostela (Saint James of Compostela).
      According to the Acts of the Apostles (acts 12, 2), Santiago (Saint James) was martyred by the sword, on the orders of Herod Agrippa  (around the year 44). According to tradition, the body was taken on a boat, floating with the 'wind tune',  and eventually arriving in Spain. He was buried in Galicia. In 814, Pelaio (hermit), while sleeping, had an epiphany that led him to discover the tomb and relics of Santiago (James).
      As soon as this discovery became known, the site immediately  turned to be a place of worship and a cathedral  was erected where the remains of the saint are buried and to which they gave the name of Catedral de Santiago de Compostela.

According to another legend, during the Christian Reconquest of the Iberian Peninsula, Santiago (Saint James) had appeared in aid of the Christians at the battle of Clavijo, in 844, and he was called the 'Matamoros' (Saint James the Moor-slayer). From this moment on, The Order of Santiago was founded having as purpose the fight against the Moors and the protection of the borders of the new reconquered territories.
      Being accepted by all Christian churches, the festivities in his honor have different schedules: for the Roman Catholic Church and Lutheran, it is celebrated on the 25th of July; for the Orthodox on the 30 st of April; for the Copts, on the 12th of April; and for the Ethiopians on the 28th of December.
      In 1661, Santiago Maior (Saint James the Greater) was portrayed in a pious prayer by the painter Rembrandt Van Rijn (1606-1669), not forgetting a light/dark transition, which confers a certain tenebrism, as in the Baroque art and also the symbols that characterise Santiago (Saint James), as the cloak, a hat and the bag in which a vieira (or shell) is attached.
      This representation as a pilgrim, which imposes itself as canonical in the European imaginary raised the artists' creativity. So, given its artistic interest, it is our purpose throughout this project to collect as many 'images' of Santiago as we can so that in the near future we can compare them. We mention 'image' instead of 'statue', because in sculpture studies the first term is recommended to identify religious representations, while the later one is applied to the sculpture from Antiquity or distinctly Classicist with monumental function (funerary) in the sculpture from Antiquity (according to Normas de inventário. Artes Plásticas e Artes Decorativas. Escultura, (2004, p. 22) published by Instituto the Português de Museus).
 

•    A majestosa catedral de Compostela é dedicada a um dos apóstolos de Cristo, irmão de João Evangelista, cujo nome podemos ver escrito de variadas formas: Santiago Maior (para o distinguir de outro discípulo também chamado Tiago, o Menor), Santiago o Grande, Santiago Filho do Trovão ou ainda Santiago de Compostela. 
      De acordo com os Actos dos Apóstolos (Act 12, 2) São Tiago foi martirizado à espada por ordem de Herodes Agripa por volta do ano 44 da nossa era. Segundo a tradição, o corpo foi levado por um barco que, ao sabor do vento, acabou por chegar a Espanha, tendo sido sepultado na Galiza. Em 814, Pelaio, um eremita, enquanto dormia, terá tido uma revelação que o levou a descobrir o túmulo e as relíquias de São Tiago. 
      Assim que se teve conhecimento desta descoberta, o local tornou-se imediatamente num espaço de veneração e sobre o túmulo foi erguida uma catedral, a que se deu o nome de Catedral de Santiago de Compostela.
      De acordo com outra lenda, durante a reconquista cristã da Península Ibérica, São Tiago terá aparecido em auxílio dos cristãos na batalha de Clavijo, em 844. Por esta ajuda, a tradição atribuiu ao santo o apelido de Matamouros. Nesse momento é fundada a Ordem de Santiago, com o propósito de combater os mouros e proteger as fronteiras dos novos territórios reconquistados.
      Sendo aceite por todas as igrejas cristãs, as festas em sua honra acontecem em momentos diferentes: para a Igreja Católica e Luterana, no dia 25 de Julho; para os Ortodoxos, o dia do santo comemora-se a 30 de Abril; para os Coptas, a 12 de Abril e, para os Etíopes, a 28 de Dezembro.
      Em 1661, Santiago Maior foi retratado em piedosa oração numa obra de Rembrandt van Rijn (1606-1669), numa transição claro/escuro, que confere um certo tenebrismo à representação, bem ao estilo que distingue a arte barroca. Sublinhe-se que o pintor não se esqueceu dos símbolos que caracterizam a imagem de Santiago, como a capa, o chapéu e também, por vezes, a sacola, nos quais a vieira (ou concha) surge em destaque. 
      Esta representação como peregrino, que se impõe como canónica na imaginária europeia, não limitou a criatividade dos artistas. Por isso, dado o seu  interesse artístico, é nosso propósito ao longo deste projecto a recolha de registos das muitas imagens de Santiago Maior que vamos conhecendo, para que um dia as possamos comparar. Dizemos “imagem” em vez de “estátua”, uma vez que no estudo da escultura o primeiro termo é recomendado para a identificação de representações de carácter religioso, enquanto o segundo se aplica mais propriamente à escultura com função monumental, funerária, na escultura da Antiguidade ou claramente classicista, de acordo com as Normas de inventário. Artes Plásticas e Artes Decorativas. Escultura, publicadas pelo Instituto Português de Museus (Lisboa, 2004, p. 22).

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post 46

The paths to Santiago: in search of salvation

 
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The paths to Santiago
In search of salvation

     

Portuguese version after the English text | Versão em português depois do texto em inglês

•    On this trip we intend to visit some places located in the four principal pilgrimages routes to Santiago: the path to Paris (Via Turonensis), which welcome the pilgrims coming from Northern Europe (Tours, Poitiers, Bordeaux, Sauveterre-de-Béarn and Saint-Michel, among other places); the path of Limousin (Via Lemovicensis), which starts in Vézelay, crossing Éguzon, Limoges, Saint-Pierre-du-Mont and Orthez; the path of Le Puy (Via Podiensis), crossing Conques, Moissac and Navarrenx. In addition to these three main routes, there is the forth one, the path of Provence (Via Tolosana or Via Arletanensis), which starts in Arles and crossing, not the road we are taking, but a little further East, in Col du Somport. These four roads cross Puente la Reiña, the location that starts the path into the Spanish territory known as the Camino Francés. They continue to be used by pilgrims, just like in the past pilgrims from all over Europe walked to Santiago de Compostela in search of salvation, which in the Middles Ages meant to start a new life. 

As Georges Duby mentions  in L’an mil, during the early period of the Middle Ages, Europe falls in a serious depression due to various invasions from the North: in one hand carried out by the Germans settled in Spain (Visigoths), in Italy (Ostrogoths), North Africa (Vandals) and Savoy (Burgundians), and in the other hand, by the Francs, Anglo-Saxons and Lombards, who conquered respectively, Gaul,  England and the North of Italy. These invasions break down the development and progress taken by the Roman Empire preserved mainly until the death of Charles the Great in 814.
      From this moment on, with the decadence of the Carolingian Empire, and after those mentioned invasions, we continue to have a society characterized by wilderness, where looting, violence, war, despair, disease and fear took over the communities in general and disadvantaged populations, subdued by the power of some groups (nobles, warlords and clergy) united by ties of kinship.
      As we approach the year 1000, the power structure is increasingly splitting and becoming hierarchical (tripartite society: nobility, clergy, common folk), which contributes to create a world dominated by confrontations that began to be previewed.
      Within this environment of fear, as Duby continues to refer, the mentioned year begins to be characterized as a tragic one, when various events occur: earthquakes, appearance of comets in the sky and snake-shaped figures. If we add to these events, today regarded as natural phenomena, the religious beliefs – often opportunistically divulged towards the less educated people, to strengthen the power of the ruling classes – we easily understand the myth of the end of the world, the coming of the Antichrist or the Apocalypse (which precede the day of judgment).
      The clergy takes over an interlocutor's role between the Earth (and their inhabitants – Kings, Knights, Peasants) and Heaven, linking also the world of the living and the dead, reading the signs given by the comets, eclipses, shooting stars and epidemics and considering them as messages sent by God.
      All these messages, which needed to be understood, were immediately associated with evil and nature's disasters, originating fear, being the worst of them the Apocalypse. Also, human beings needed to purify themselves and to do penance, having in mind the forgiveness of their sins and thus a place in paradise. Some decide to live as monks, renouncing material life, pleasure,  family ties, as an attempt to purify their souls. Others marched towards the Promised land,  Rome or Santiago de Compostela (Saint James of Compostela).
      The pilgrimages are, as Duby considers, the  most perfect and accepted of all forms of askesis that Christianity (11th century) offered to the Knights, anxious for salvation. In addition, this phenomenon functions as a case of study to clarify the eternal search for Paradise by the pilgrim, who was haunted by the religious doctrin called millinerism and worried to redeem from his sins and to reach the heavenly Jerusalem after death.
      It should further be emphasized that the pilgrimages eventually determine the typology and architectural forms of Romanesque churches, which are constructed according to a plan that allows the Pilgrim to walk inside without compromising the religious events. The carved tympanum discloses a message associated with the theme of the Last Judgment, even if a few people could read, but where the image turns out to be a powerful vehicle for evangelization. Similarly, the chapiters become privileged means for the dissemination of Christian iconography, which contributed to characterize the medieval aesthetics.
      We will emphasize in future posts, iconographic and typological aspects when divulging some pictures of the churches that lie along our travel through the pilgrimage paths.
      Nowadays, the meaning of those travels to Santiago de Compostela (Saint James of Compostela) have different explanations according to each human being who performs it. Therefore, we will try to leave here some testimonials of those who currently achieve to do these itineraries.

•    Nesta viagem pretendemos visitar alguns lugares situados nos quatros principais caminhos de peregrinação para Santiago: o caminho de Paris (Via Turonensis), que recebe os peregrinos vindos do Norte da Europa e passa, entre outros locais, em Tours, Poitiers, Bordeaux, Sauveterre-de-Béarn e Saint-Michel; o caminho de Limousin (Via Lemovicensis), que se inicia em Vézelay, passando por Éguzon, Limoges, Saint-Pierre-du-Mont e Orthez; o caminho de Le Puy (Via Podiensis), por Conques, Moissac e Navarrenx. Além destes três itinerários principais, há um quatro, o caminho de Provence (Via Tolosana ou Via Arletanensis), que vem de Arles e não faz a passagem dos Pirenéus, mas um pouco mais a leste, em Col du Somport. Estes quatro caminhos passam em Puente la Reiña, a localidade que dá início ao caminho em território espanhol designado por camino francés. Continuam hoje a ser frequentados por peregrinos, tal como no passado peregrinos de toda a Europa caminhavam para Santiago de Compostela em busca da salvação, o que na Idade Média significava recomeçar uma nova vida.
      Como refere Georges Duby, no livro L’an mil, neste período da Idade Média, a Europa entra numa grave depressão, em muito motivada pelas vagas de invasores oriundos do Norte – a primeira, de povos germânicos que se instalaram em Espanha (Visigodos), na Itália (Ostrogodos), no Norte de África (Vândalos) e na Sabóia (Burgúndios); a segunda, perpetrada pelos Francos, Anglo-Saxões e Lombardos, que conquistaram respectivamente a Gália, a Inglaterra e o Norte de Itália – invasões que põem fim a um tempo de desenvolvimento e de  progresso, que o império romano tinha alcançado e que se manteve principalmente até à morte de Carlos Magno, em 814. 
      A partir deste momento, com o império carolíngio em decadência, e após as duas vagas invasoras, voltamos a ter como tónica dominante na sociedade uma atitude selvagem em que o saque, a violência, a guerra, o desespero, as doenças e o medo se apoderavam das comunidades em geral e das populações mais desfavorecidas, submetidas ao poder de alguns grupos (nobres, senhores da guerra e clero), unidos por laços de parentesco.
      À medida que nos aproximamos do ano mil, os poderes começam a ficar cada vez mais fraccionados e hierarquizados (sociedade tripartida: nobreza, clero, povo), o que contribui para que todos os factores acima referidos produzam um mundo dominado por confrontos que se começavam a antever.
      É neste ambiente de medo, como continua a referir Duby, que o ano mil se começa a associar a um ano trágico, quando diversos acontecimentos se sucedem: tremores de terra, aparecimento no céu de cometas e de figuras em forma de serpentes. Se juntarmos a estes acontecimentos, hoje entendidos como fenómenos naturais, as crenças religiosas – muitas vezes oportunamente lançadas junto dos mais incultos para reforçar o poder das classes dominantes – facilmente se percebe o mito do fim do mundo, da vinda do Anticristo ou do Apocalipse, que antecederia o dia do Juízo Final.
      Nesta atmosfera mística, de espera pelo momento final, o clero assume papel de interlocutor  entre o mundo dos homens (fossem eles reis, cavaleiros ou camponeses) e o reino dos Céus. Da mesma forma, estabelece também a ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos, interpretando cometas, eclipses, estrelas cadentes e epidemias como sinais enviados por Deus. 
      Todas estas mensagens, que necessitavam de ser compreendidas, eram rapidamente associadas ao mal e geravam o medo, porque anunciavam catástrofes, sendo a pior delas o apocalipse, havendo a necessidade de os homens se purificarem e penitenciarem para que obtivessem o perdão dos seus pecados e, desta forma, um lugar no Paraíso. Alguns decidem viver como monges, abandonando tudo o que era material, renunciando ao prazer, aos laços familiares, numa tentativa de purificarem as almas. Outros marcham em direcção à Terra Prometida, a Roma ou a Santiago de Compostela.
      As peregrinações são, como considera Georges Duby, a mais perfeita e mais bem aceite das formas de ascese que o Cristianismo do século XI propunha aos cavaleiros ansiosos pela salvação. Além disso, as peregrinações constituem em si mesmo fenómenos essenciais para se compreender a eterna procura do Paraíso por parte do peregrino que, com o fenómeno do milenarismo, se preocupava em se redimir dos seus pecados e alcançar a Jerusalém Celeste após a morte. 
      Importa ainda notar que as peregrinações acabaram por determinar a tipologia e as formas arquitectónicas das igrejas românicas, que passam a ser construídas segundo uma planta que permite ao peregrino caminhar no interior dos edifícios sem comprometer os ofícios religiosos. Nos tímpanos esculpidos divulga-se uma mensagem associada ao tema do Juízo Final, num tempo em que poucos sabiam ler, mas onde a imagem acaba por ser um poderoso veículo de evangelização. Da mesma forma, os capitéis tornam-se meios privilegiados para a divulgação de toda uma iconografia cristã, que iria contribuir para caracterizar a estética medieval.
      É também sobre estes aspectos, tipológicos e iconográficos, que iremos dar destaque em futuros posts, quando divulgarmos algumas das igrejas que se encontram ao longo dos caminhos de peregrinação por nós percorridos. 

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post 45

France, Limousin, Oradour-sur-Glane

 
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France, Limousin, Oradour-sur-Glane
10th of June 1944: Place with Memories

     

Versão em português depois do texto em inglês | Portuguese version after the English text

•   The following days after the landing of allied forces on the beaches of Normandy, the German army has intensified the bloody repression and violence against the civilian population in various regions of France, in particular where the action of the Resistance appeared to be more relevant.
      On the afternoon of the 10th of June 1944, an SS Division, having approximately 150 to 200 soldiers, surrounded and invaded with trucks and armored cars Oradour-sur-Glane, a peaceful village located among 20 km west of Limoges, decimating nearly the entire population, which also hosted refugees from Charly-Oradour and Montoy-Flanville.
      In total, German troops took the lives of 642 people (205 men, 244 women and 193 children) and, after plundering and setting fire to the buildings, burned and outraged their bodies, preventing their identification.

 
+ Oradour-sur-Glane, France

+ Oradour-sur-Glane, France

 

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The horror of what happened that afternoon can still be felt in the streets of Oradour-sur-Glane, where the normal daily life of the inhabitants was stopped in a brutal and inexplicable way.
      In March the 4th 1945, General De Gaulle decreed the maintenance of the ruins as its original existence, turning it to a place of memory and "symbol of the sufferings borne by the people of France throughout four years of occupation".
      Nowadays, the access to the "village martyr" is done through the ‘Centre de la Mémoire’. More than a documentary and exhibition space, it is also a place for reflection, which examines the rise of Nazism, the brutality of the operations of the German army (Oradour-sur-Glane is just one of the darkest examples), and the important role of the resistance. A 12-minute film reconstructs the dramatic events of June the 10th. The testimony of the few survivors (about 26) and those who discovered this tragic event for the first time, as well as the documentation gathered over the years about the identity of the victims, keeps alive the memory of one of the saddest and disturbing episodes of World War II.
      It was in this place of memory that we took the photographs which show the general appearance of what the village became, as well as some of the inhabitants’ belongings, who have remained, until now, in the same place where they were when their owners were executed. In fact, when we cross Oradour-sur-Glane, the ruins of buildings and objects-deformed by the flames reveal the degree of violence that fall over its defenceless population.

 

•   Nos dias que se seguiram ao desembarque das forças aliadas nas praias da Normandia, o exército alemão intensificou a repressão sangrenta e as acções de violência sobre a população civil em várias regiões da França, em especial onde a actuação da Resistência parecia ser mais relevante. 
      Na tarde de 10 de Junho de 1944, uma divisão das SS constituída por cerca de 150 a 200 soldados cercou e invadiu com camiões e carros blindados Oradour-sur-Glane, uma pacífica aldeia situada a 20 km a oeste de Limoges, dizimando praticamente toda a população, que acolhia também refugiados de Charly-Oradour e de Montoy-Flanville. 
      No total, as tropas alemãs tiraram a vida a 642 pessoas (205 homens, 244 mulheres e 193 crianças) e, depois de pilharem e incendiarem os edifícios, queimaram e ultrajaram os seus corpos, impedindo a sua identificação. 
      O horror do que aconteceu naquela tarde pode ainda hoje ser pressentido nas ruas despojadas de Oradour-sur-Glane, onde o dia-a-dia normal dos habitantes foi interrompido de uma forma brutal e inexplicável.
      Para que o massacre não fosse esquecido, a 4 de Março de 1945, o general De Gaulle decretou a manutenção das ruínas no seu estado original como lugar de memória e “símbolo dos sofrimentos suportados pelo povo francês ao longo de quatro anos de ocupação”. 
      O acesso à “village martyr” faz-se hoje através do Centre de la Mémoire. Mais do que um espaço expositivo e documental é também um lugar de reflexão, onde se analisa a ascensão do Nazismo, a brutalidade das operações do exército alemão – de que Oradour-sur-Glane é apenas um dos exemplos mais negros – e o papel importante da Resistência. Um filme de 12 minutos reconstrói os acontecimentos dramáticos do dia 10 de Junho. Os testemunhos dos poucos sobreviventes (cerca de 26) e dos que descobriram o drama pela primeira vez, bem como a documentação reunida ao longo dos anos sobre a identidade das vítimas, mantêm viva a memória de um dos episódios mais tristes e perturbadores da Segunda Guerra Mundial. 
      Foi neste lugar de memória que recolhemos as imagens que pretendem mostrar um aspecto geral do estado em que ficou a aldeia, bem como alguns dos bens dos habitantes, que permaneceram até hoje no mesmo local onde estavam quando os seus proprietários foram executados. De facto, quando se percorre Oradour-sur-Glane, as ruínas dos edifícios e os objectos – deformados pelas chamas – revelam bem o grau de violência que se abateu sobre a sua população indefesa.

 

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post 42