The paths to Santiago: in search of salvation

 
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The paths to Santiago
In search of salvation

     

Portuguese version after the English text | Versão em português depois do texto em inglês

•    On this trip we intend to visit some places located in the four principal pilgrimages routes to Santiago: the path to Paris (Via Turonensis), which welcome the pilgrims coming from Northern Europe (Tours, Poitiers, Bordeaux, Sauveterre-de-Béarn and Saint-Michel, among other places); the path of Limousin (Via Lemovicensis), which starts in Vézelay, crossing Éguzon, Limoges, Saint-Pierre-du-Mont and Orthez; the path of Le Puy (Via Podiensis), crossing Conques, Moissac and Navarrenx. In addition to these three main routes, there is the forth one, the path of Provence (Via Tolosana or Via Arletanensis), which starts in Arles and crossing, not the road we are taking, but a little further East, in Col du Somport. These four roads cross Puente la Reiña, the location that starts the path into the Spanish territory known as the Camino Francés. They continue to be used by pilgrims, just like in the past pilgrims from all over Europe walked to Santiago de Compostela in search of salvation, which in the Middles Ages meant to start a new life. 
      As Georges Duby mentions  in L’an mil, during the early period of the Middle Ages, Europe falls in a serious depression due to various invasions from the North: in one hand carried out by the Germans settled in Spain (Visigoths), in Italy (Ostrogoths), North Africa (Vandals) and Savoy (Burgundians), and in the other hand, by the Francs, Anglo-Saxons and Lombards, who conquered respectively, Gaul,  England and the North of Italy. These invasions break down the development and progress taken by the Roman Empire preserved mainly until the death of Charles the Great in 814.
      From this moment on, with the decadence of the Carolingian Empire, and after those mentioned invasions, we continue to have a society characterized by wilderness, where looting, violence, war, despair, disease and fear took over the communities in general and disadvantaged populations, subdued by the power of some groups (nobles, warlords and clergy) united by ties of kinship.
      As we approach the year 1000, the power structure is increasingly splitting and becoming hierarchical (tripartite society: nobility, clergy, common folk), which contributes to create a world dominated by confrontations that began to be previewed.
      Within this environment of fear, as Duby continues to refer, the mentioned year begins to be characterized as a tragic one, when various events occur: earthquakes, appearance of comets in the sky and snake-shaped figures. If we add to these events, today regarded as natural phenomena, the religious beliefs – often opportunistically divulged towards the less educated people, to strengthen the power of the ruling classes – we easily understand the myth of the end of the world, the coming of the Antichrist or the Apocalypse (which precede the day of judgment).
      The clergy takes over an interlocutor's role between the Earth (and their inhabitants – Kings, Knights, Peasants) and Heaven, linking also the world of the living and the dead, reading the signs given by the comets, eclipses, shooting stars and epidemics and considering them as messages sent by God.
      All these messages, which needed to be understood, were immediately associated with evil and nature's disasters, originating fear, being the worst of them the Apocalypse. Also, human beings needed to purify themselves and to do penance, having in mind the forgiveness of their sins and thus a place in paradise. Some decide to live as monks, renouncing material life, pleasure,  family ties, as an attempt to purify their souls. Others marched towards the Promised land,  Rome or Santiago de Compostela (Saint James of Compostela).
      The pilgrimages are, as Duby considers, the  most perfect and accepted of all forms of askesis that Christianity (11th century) offered to the Knights, anxious for salvation. In addition, this phenomenon functions as a case of study to clarify the eternal search for Paradise by the pilgrim, who was haunted by the religious doctrin called millinerism and worried to redeem from his sins and to reach the heavenly Jerusalem after death.
      It should further be emphasized that the pilgrimages eventually determine the typology and architectural forms of Romanesque churches, which are constructed according to a plan that allows the Pilgrim to walk inside without compromising the religious events. The carved tympanum discloses a message associated with the theme of the Last Judgment, even if a few people could read, but where the image turns out to be a powerful vehicle for evangelization. Similarly, the chapiters become privileged means for the dissemination of Christian iconography, which contributed to characterize the medieval aesthetics.
      We will emphasize in future posts, iconographic and typological aspects when divulging some pictures of the churches that lie along our travel through the pilgrimage paths.
      Nowadays, the meaning of those travels to Santiago de Compostela (Saint James of Compostela) have different explanations according to each human being who performs it. Therefore, we will try to leave here some testimonials of those who currently achieve to do these itineraries.

•    Nesta viagem pretendemos visitar alguns lugares situados nos quatros principais caminhos de peregrinação para Santiago: o caminho de Paris (Via Turonensis), que recebe os peregrinos vindos do Norte da Europa e passa, entre outros locais, em Tours, Poitiers, Bordeaux, Sauveterre-de-Béarn e Saint-Michel; o caminho de Limousin (Via Lemovicensis), que se inicia em Vézelay, passando por Éguzon, Limoges, Saint-Pierre-du-Mont e Orthez; o caminho de Le Puy (Via Podiensis), por Conques, Moissac e Navarrenx. Além destes três itinerários principais, há um quatro, o caminho de Provence (Via Tolosana ou Via Arletanensis), que vem de Arles e não faz a passagem dos Pirenéus, mas um pouco mais a leste, em Col du Somport. Estes quatro caminhos passam em Puente la Reiña, a localidade que dá início ao caminho em território espanhol designado por camino francés. Continuam hoje a ser frequentados por peregrinos, tal como no passado peregrinos de toda a Europa caminhavam para Santiago de Compostela em busca da salvação, o que na Idade Média significava recomeçar uma nova vida.
      Como refere Georges Duby, no livro L’an mil, neste período da Idade Média, a Europa entra numa grave depressão, em muito motivada pelas vagas de invasores oriundos do Norte – a primeira, de povos germânicos que se instalaram em Espanha (Visigodos), na Itália (Ostrogodos), no Norte de África (Vândalos) e na Sabóia (Burgúndios); a segunda, perpetrada pelos Francos, Anglo-Saxões e Lombardos, que conquistaram respectivamente a Gália, a Inglaterra e o Norte de Itália – invasões que põem fim a um tempo de desenvolvimento e de  progresso, que o império romano tinha alcançado e que se manteve principalmente até à morte de Carlos Magno, em 814. 
      A partir deste momento, com o império carolíngio em decadência, e após as duas vagas invasoras, voltamos a ter como tónica dominante na sociedade uma atitude selvagem em que o saque, a violência, a guerra, o desespero, as doenças e o medo se apoderavam das comunidades em geral e das populações mais desfavorecidas, submetidas ao poder de alguns grupos (nobres, senhores da guerra e clero), unidos por laços de parentesco.
      À medida que nos aproximamos do ano mil, os poderes começam a ficar cada vez mais fraccionados e hierarquizados (sociedade tripartida: nobreza, clero, povo), o que contribui para que todos os factores acima referidos produzam um mundo dominado por confrontos que se começavam a antever.
      É neste ambiente de medo, como continua a referir Duby, que o ano mil se começa a associar a um ano trágico, quando diversos acontecimentos se sucedem: tremores de terra, aparecimento no céu de cometas e de figuras em forma de serpentes. Se juntarmos a estes acontecimentos, hoje entendidos como fenómenos naturais, as crenças religiosas – muitas vezes oportunamente lançadas junto dos mais incultos para reforçar o poder das classes dominantes – facilmente se percebe o mito do fim do mundo, da vinda do Anticristo ou do Apocalipse, que antecederia o dia do Juízo Final.
      Nesta atmosfera mística, de espera pelo momento final, o clero assume papel de interlocutor  entre o mundo dos homens (fossem eles reis, cavaleiros ou camponeses) e o reino dos Céus. Da mesma forma, estabelece também a ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos, interpretando cometas, eclipses, estrelas cadentes e epidemias como sinais enviados por Deus. 
      Todas estas mensagens, que necessitavam de ser compreendidas, eram rapidamente associadas ao mal e geravam o medo, porque anunciavam catástrofes, sendo a pior delas o apocalipse, havendo a necessidade de os homens se purificarem e penitenciarem para que obtivessem o perdão dos seus pecados e, desta forma, um lugar no Paraíso. Alguns decidem viver como monges, abandonando tudo o que era material, renunciando ao prazer, aos laços familiares, numa tentativa de purificarem as almas. Outros marcham em direcção à Terra Prometida, a Roma ou a Santiago de Compostela.
      As peregrinações são, como considera Georges Duby, a mais perfeita e mais bem aceite das formas de ascese que o Cristianismo do século XI propunha aos cavaleiros ansiosos pela salvação. Além disso, as peregrinações constituem em si mesmo fenómenos essenciais para se compreender a eterna procura do Paraíso por parte do peregrino que, com o fenómeno do milenarismo, se preocupava em se redimir dos seus pecados e alcançar a Jerusalém Celeste após a morte. 
      Importa ainda notar que as peregrinações acabaram por determinar a tipologia e as formas arquitectónicas das igrejas românicas, que passam a ser construídas segundo uma planta que permite ao peregrino caminhar no interior dos edifícios sem comprometer os ofícios religiosos. Nos tímpanos esculpidos divulga-se uma mensagem associada ao tema do Juízo Final, num tempo em que poucos sabiam ler, mas onde a imagem acaba por ser um poderoso veículo de evangelização. Da mesma forma, os capitéis tornam-se meios privilegiados para a divulgação de toda uma iconografia cristã, que iria contribuir para caracterizar a estética medieval.
      É também sobre estes aspectos, tipológicos e iconográficos, que iremos dar destaque em futuros posts, quando divulgarmos algumas das igrejas que se encontram ao longo dos caminhos de peregrinação por nós percorridos. 

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